terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Diálogo Monológico

Boa noite, caro leitor.

Comecei esse blog de forma excessivamente prolixa e remetendo a pensamentos filosóficos de outros. Não gostei de meus textos e, com pouca disponibilidade de tempo para elaborar meu estilo de escrita e pensar o tipo de reflexão ao qual esse espaço se dedicaria, o abandonei. Mas estou de volta, não sei até quando.

Isso tudo me faz pensar numa conversa que tive com uma amiga, há uns dois anos. Ela disse: "Sempre que você vai defender um ponto de vista, cita frases de várias pessoas, ilustres ou não, que concordariam com você". Fiquei pensando muito naquilo, e tive uma espécie de discussão comigo mesmo, um hábito que muitos têm mas do qual pouco se diz. Um diálogo do tipo entre Smeagol e Gollum, eu diria.

"- Ah, mas isso é coisa da faculdade. Somos adestrados a pensar pela cabeça dos autores, pela linha de raciocínio deles. Ninguém defende uma dissertação, uma tese, sem argumentos de autoridade.

- Sim, isso é verdade. Mas será só esse o motivo? Será que você não se justificava citando outros antes mesmo da faculdade?

- Nossa, não lembro, será? Não lembro direito como eu era, como eu pensava, antes da faculdade. É difícil fazer esse retrocesso e lembrar minha sensações, opiniões, sentimentos sobre o mundo e sobre a vida antes de algumas experiências. Não consigo lembrar direito como era minha vida - no conjunto da obra - sem meu cachorro ou minha namorada, por exemplo, porque já estão internalizados nela hoje. Lembro de fatos isolados que excluem eles, mas não sei o que compunha minha essência mais genérica, entende?

- Engraçado, isso né? As vezes pensamos no nosso 'eu-passado' achando que se trata do mesmo indivíduo que nosso 'eu-presente', e julgamos as atitudes daquele com os critérios deste. Mas somos pessoas diferentes, pensamos diferentes.

- Ah, sim, algum linguista falaria algo sobre formação discursiva, mas não entendo disso.

- Mas não mude de assunto. Por que, afinal, você precisa se amparar em outros para se justificar? Não é só por mania acadêmica...

- Bom, talvez, no fundo, eu nunca tenha me considerado bom em retórica e argumentação, e por isso sempre achei importante me pautar por linhas argumentativas alheias.

- Mas veja: há quatro, cinco anos atrás, você não fazia idéia do que seria retórica, ou do que seria uma boa linha argumentativa.

- Não, mas não acho que é um processo consciente do tipo "não argumento bem, então vou citar uma metáfora do Lula que cai bem no debate". É algo inconsciente, espontâneo. Eu já tinha internalizado que não sei argumentar bem, ainda que não tivesse clara uma definição racional do que é argumentação.

- Sim, isso faz sentido. Eu devia estudar mais psicologia para entender isso.

- É, dizem que muita gente entra em faculdade de psicologia para entender a si próprio. Deve ser verdade.

- Provavelmente. Afinal, quantos mistérios não escondem o pensamento e o comportamento humano?"

Não foi exatamente assim. Afinal, não consigo me colocar exatamente no lugar de mim mesmo há 3 anos atrás.

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