sábado, 23 de maio de 2009

Sujeitos, Determinismos e Liberdade

Boa tarde, caros leitores.

Sem longos devaneios prefaciais, vamos à minha indagação introdutória da postagem do dia, resultado de uma reflexão feita nesta noite mal dormida que tive: o que constitui a essência individual de cada um de nós? Em outras palavras, nossas decisões, opções, vontades, impulsos e caracteres subjetivos são mero resultado de uma complexa interação entre "ser biológico" e meio social, passando pela peneira da mente humana e suas artimanhas? Ou há um "algo mais", exterior à nossa constituição física e superior ao meio social, que nos determina e transforma a essência humana em algo dotado de liberdade superior aos determinimos (biológicos e sociais)?

Pois bem, não sou filósofo, sociólogo, antropólogo, psicólogo tampouco biólogo para responder a tal questão com propriedade. Valer-me-ei, apenas, da breve masturbação mental que produzi antes de vir e de algumas leituras que realizei há muito, correndo riscos de falar imensos absurdos se tomados em relação aos campos intelectuais supracitados.

Aos materialistas extremos, é negada a opção do "algo a mais", só restando-lhes ver no ser humano um complexo ("complexo de complexos" na ontologia lukacsiana) resultante de uma relação entre o ser biológico e as feições sócio-culturais, moldadas a partir do trabalho. Ou seja, as necessidades huamanas primárias, no início da vida da espécie, fizeram o homem precisar trabalhar. No trabalho, homens começam a interagir uns com os outros e inicia-se a sociabilidade, a fala, a linguagem, a divisão do trabalho que, com o tempo, reproduzem-se em categorias culturais que praticamente se autonomizam e evoluem. Dentro dos caracteres de seu tempo, os seres são formados e educados, sendo socialmente moldados em determinado sentido.

Na Grécia Antiga temos outros exemplos de tal estudo. Pensemos em Platão. Para ele, a essência humana estava no "mundo das idéias", que serviria de base para a vida humana terrena. O amor platônico, ao contrário do que a literatura diz, não é um amor irrealizável, mas sim um amor determinado no mundo das idéias, que pode se realizar terrenamente ou não. Não se nega os determinismos externos na participação nesse processo: o famoso "mito da caverna" é um bom exemplo disso.

No cristianismo, o homem é "imagem e semelhança de Deus", mas tornou-se pecador no paraíso. Na Idade Média, isso ocasionou uma leitura de que possuimos uma essência má frente a um Deus bom. Assim sendo, passamos por provações e castigos na Terra a todo instante, que devemos aceitar por ser a vontade divina. Hoje, o cristianismo é amplo demais para tirarmos uma conclusão genérica. Da Teologia da Libertação ao Neopentecostalismo, há divergências internas excessivas para qualquer dedução do tipo.

Mas enfim, multiplicariam-se os exemplos. O que pretendo dizer é o seguinte: aderir à vertente materialista significa negar qualquer tipo de entidade superior que nos define como somos, e admitir que somos apenas seres, embora racionais e emotivos, contruídos socialmente e biologicamente, que reproduzimos, destruímos e recontruímos o mundo porque fomos formados em determinado sentido, e não porque temos uma individualidade moldada além dos princípios científicos.

Negar tal vertente, no entanto, significa admitir Deus. Ou deus. Ou deuses. Ou forças cósmicas que regem o universo. Ou um mundo das idéias. Enfim, uma transcedentalidade, algo que transcende ao explicável e nos determina como somos. Não significa negar os fatores biológicos e sócio-históricos, mas admitir que temos uma intimidade própria, moldada por algo/alguém que, quando encontrada por nós mesmos, nos leva à real liberdade.

Partilho da segunda vertente, como podem imaginar meus leitores. Por isso, encerro com uma citação excelente de um autor que, no geral, pouco admiro:

O leitor, perplexo, em busca de uma certeza final, perguntaria: “Mas, e Deus, existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é minha irmã?” Ao que a alma religiosa só poderia responder: “Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido...” (Rubem Alves)

Um abraço a todos.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. caro casmurro,

    não deixe que o receio de escrever besteiras censure nossos devaneios, estes produzem nossas melhores reflexões! rs!

    me pego pensando muito ultimamente em como alguns perdem essa essência - que acredito veementemente ter sua origem no meio social - tentando negar ou ser aceito pela sociedade, por um grupo... alguns casos são lamentáveis, outros relativamente compreensíveis, muitos chegam a ser repugnantes... concorda?

    a questão é que nessa loucura de tantas origens, tantas definições, muitos se perdem...

    seja pela religião, pelo meio familiar, pelo materialismo, pela educação, é tanta influência, tantas expectativas... mas ainda lamento aqueles que se deixam perder!

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  3. Pode sim caro casmurro! Muito me agrada suas visitas inesperadas! Obrigada

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