quarta-feira, 21 de julho de 2010

Bruno, violência e barbárie

É inevitável falar do caso Bruno. A forma como foi morta Eliza Samudio, supostamente sob ordem do goleiro, deve causar, além de espanto, uma reflexão sobre os rumos da violência. Para isso, podemos começar com duas perguntas: além da brutalidade do ato e do acusado ser uma celebridade, o que diferencia o caso Bruno dos demais assassinatos que vemos diariamente nos noticiários? O que nos espanta é o assassinato em si, ou o fato dele partir de Bruno e ocorrer de forma tão brutal?

Quando vemos algum vídeo em que um animal doméstico é maltratado ou morto, a cena nos causa um sentimento ao mesmo tempo de revolta e piedade. Mas costumamos ter a mesma reação quando se trata de pessoas? Sentimos essa mesma revolta ao saber do número de mortos no Haiti, no Chile, no nordeste, ou ao assistir tiroteios nos morros cariocas e assassinatos diários na periferia São Paulo?

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau defendia que uma característica comum a todos os homens, de todas as culturas, seria a piedade, a capacidade de sofrer pelo sofrimento do semelhante. Contudo, parece que a violência e a miséria tomaram conta da nossa cultura cotidiana. Só nos compadecemos ao ver casos profundamente macabros como os de Bruno, Richthofen e Nardoni, ainda que sejam tão socialmente graves quanto outros que acontecem todos os dias e não nos comovem mais.

A violência se banaliza; a “piedade” está em decadência. A saída mais comum é culpar a mídia por isso, e livrar nossa consciência de assistir tanta morte com tão pouco ressentimento. A questão, porém, pode ser ainda mais profunda: ou Rousseau estava errado, e a piedade não é tão universal assim; ou Rousseau estava certo, e não sentimos a piedade porque não vemos mais no outro um semelhante, um ser humano, de forma que só sofremos com ele em casos extremos de tortura fria. Compadecemos do animal doméstico que sofre ou do torturado porque atribuímos humanidade a eles. Caminhamos, porém, para a desumanização do próprio homem, cuja reversão exige transformações profundas em nossa sociedade.

É necessário refletir as causas políticas, sociais e econômicas dessa expressão cultural que toma conta do mundo contemporâneo. Os preconceitos étnicos e a homofobia são exemplos de desumanização: se o outro é inferior a mim, não é meu semelhante e não me vejo nele. O holocausto foi a conseqüência mais emblemática dessa postura. E não é preciso pensar em Bruno para ver que a barbárie ainda é semeada mesmo após Auschwitz.

5 comentários:

  1. Pois é caro Casmurro, não é fácil ser sociólogo nesse mundo, eu diria...

    Enquanto refletimos sobre isso a maioria vê como um caso isolado e só olha "o goleiro que fez burrada", infezlimente...

    Destaco dois pontos: existem uma dezena de Elizas desaparecidas e mortas pelas mesmas circunstâncias, mas, claro, a sociedade continua tapando os olhos e olhando pra este como um caso isolado, como disse; acredito que Rousseau estava certo, porém, o que se perdeu foi a apatia, aquilo de se colocar no lugar do outro, todo mundo enxerga diferença demais pra não ser igual, eis o resultado...

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  2. A comparação entre cachorros mortos e o haiti foi literalmente sociologia de botequim...

    Não tem nada a ver uma coisa com a outra. A espetacularização da morte não é a espetacularizaçao da morte em si, sacou? É a espetacularização do matador.

    E o velho adorno deve estar se revirando depois de vc inverter a relação causal no parágrafo final! "se o outro é inferior a mim, não é meu semelhante e não me vejo nele" . A minha superioridade em relação aos demais não é autocentrada. Ela se constrói em relação. A ordem certa da frase é: se o outro não é meu semelhante, se não me vejo nele, ENTÃO ele é inferior a mim.

    Isso não é desumanização. É uma questão de perspectiva. Mais viveiros de castro e menos adorno pode te ajudar.

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  3. Caro Anonimo,

    Acato com prazer sua sugestão. Enfatizo, contudo, que este é um artigo enviado para jornal, com limite de caracteres, sem oportunidade de aprofundar alguns pontos, que esclareço agora:

    Não comparei cachorros mortos com o Haiti, mas usei dois exemplos distintos para demonstrar, por um lado, a humanidade atribuida a certos animais ou coisas (eu não quis entrar no mérito da mercadoria por questão de espaço) - humanidade que depende, dentre outras coisas, da relação que historicamente desenvolvemos com tais animais, que podem envolver desde comensalidade até utilização como transporte - e, por outro, uma decadência no sentido de enxergar no outro um semelhante. O que está em voga é questionar o porquê nos compadecemos pelo outro em certos casos e em outros não - qual nosso critério, afinal. Uma reflexão que, em um estudo profundo, poderia chegar em uma discussão sobre como se formula, nas subjetividades, o limite entre o grave e o não-grave, o absurdo e o rotineiro, etc.

    Quanto a observação sobre a ordem das palavras, estou utilizando mais a lógica de Rousseau que a de Adorno - o objetivo da frase é elaborar uma hipótese para a qual não vemos no outro um semelhante e, portanto, não nos compadecemos dele. Uma mera hipótese, aliás, sem intenção comprobatória. Afinal, trata-se de um artigo para jornal.

    De todo modo, a ordem sugerida para as palavras - "se o outro não é meu semelhante, se não me vejo nele, ENTÃO ele é inferior a mim" - é completamente falaciosa e pressupõe que consideramos inferior todo e qualquer diferente, algo que nunca li em Adorno. Talvez você tenha lido isso em Viveiros de Castro, um autor do qual tenho poucas e superficiais leituras, não me considerando capacitado a comentar.

    Por fim, friso que este é um espaço de devaneios, não de exposição de resultados científicos. Um espaço em que se misturam assuntos cotidianos e elementos sociológicos, sem o compromisso com o método. Devido a esse próprio caráter do espaço, ele está aberto a observações de todo tipo - seja me corrigindo acerca das informações do caso Bruno, seja me sugerindo novas leituras sociológicas.

    Por isso, agradeço o comentário.

    Abraços.

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  4. Acho que se nossos alunos da aula sobre desumanização fossem reais, trariam todos essa notícia de tarefa!

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